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A IA que você instalou não basta: o que separa as empresas que capturam valor das que ainda esperam o retorno

"A maior parte da inteligência das empresas está na força de trabalho." A frase é de Priscyla Laham, presidente da Microsoft Brasil desde janeiro de 2025, com mais de 25 anos de experiência em tecnologia. Dita no palco do Web Summit Rio 2026, ela funciona como um reset para uma conversa que o mercado insiste em travar no lugar errado: o de qual modelo usar, qual plataforma contratar, qual projeto lançar.
Laham não veio falar sobre infraestrutura. O investimento de quase R$ 15 bilhões que a Microsoft anuncia no Brasil, o maior da empresa em 37 anos de presença no país, é só o pano de fundo. O que ela trouxe ao palco, em conversa com Rafael Coimbra, editor-chefe da MIT Technology Review BR, foi uma pergunta mais incômoda: por que tantas empresas já têm acesso à IA e ainda não estão capturando valor?
A resposta que ela propõe é estrutural. E muda a conversa de "o que implementar" para "o que está impedindo".
O gap não é de tecnologia. É de inteligência.
A Microsoft cunhou internamente o conceito que Laham chamou de "gap de inteligência" e que se tornou o eixo da apresentação. A ideia é simples na formulação e brutal na implicação: não basta ter acesso às ferramentas. A IA só gera valor quando é alimentada de contexto, e o contexto está represado.
"Boa parte da inteligência das empresas está nos dados, mas ela está na força de trabalho", afirmou Laham. Não nos relatórios, não nos dashboards. Nas conversas do dia a dia, nos chats das equipes, nas decisões tomadas em reuniões que nunca são registradas de forma estruturada.
Isso tem uma consequência direta para quem lidera organizações: colocar IA em processos de trabalho ruins não gera nenhum benefício. A tecnologia amplifica o que já existe, para o bem e para o mal. Uma pesquisa que a Microsoft conduziu junto ao IDC, com cerca de 100 executivos C-level brasileiros, mostra que 90% deles enxergam a IA como fator de competitividade. O problema revelado no mesmo estudo é o que fica entre o discurso e a prática: parte significativa desses líderes ainda não está disposta a redesenhar os processos de trabalho. O gap de inteligência, portanto, não é tecnológico. É de disposição para mudar.
A adaptação da força de trabalho é o verdadeiro gargalo
Laham foi direta ao deslocar o debate: "Acesso à ferramenta eu nem estou considerando. Dar acesso às ferramentas, essas empresas ainda não fizeram, e isso já é um problema grave." A frase não é sobre plataformas. É sobre prioridade de liderança.
A Microsoft lançou o Conecta IA, uma plataforma de capacitação com trilhas que vão de letramento digital a cibersegurança. O compromisso inicial era treinar 5 milhões de pessoas em três anos. Até o momento da palestra, o programa já havia alcançado 3,8 milhões de pessoas que completaram trilhas de treinamento, além de 1 milhão com certificações em tecnologia. "Quem tem certificação em tecnologia tem emprego", disse Laham, apontando para um mercado com mais vagas do que profissionais qualificados.
O programa envolve 40 entidades parceiras, incluindo ONGs, governo e organizações como a Fundação Bradesco. E a outra frente, mais imediata, passou pelos próprios clientes: nos últimos dois meses anteriores à palestra, a empresa investiu no treinamento de 40.000 funcionários de empresas parceiras.
A lógica por trás disso não é filantrópica. É estratégica. Laham descreveu o que ela vê como a próxima fronteira profissional: executivos que não apenas usam IA, mas que chegam ao mercado "acompanhados de agentes" com habilidades específicas. Não vende mais o serviço de um profissional de marketing. Vende o que um departamento inteiro entrega. O currículo do futuro não vai listar "Excel" como habilidade: vai listar quais agentes você opera e o que eles entregam.
Os três fatores que posicionam o Brasil como player de valor
A pergunta de Coimbra era sobre o risco do Brasil se tornar apenas fornecedor de infraestrutura, energia barata e dados para o restante do mundo. A resposta de Laham foi articulada em três vetores, e cada um deles muda o peso da discussão.
O primeiro é a população digitalizada. O Brasil tem uma das bases de usuários tecnológicos mais engajadas do mundo, com alta taxa de adoção de serviços digitais. Isso não é curiosidade demográfica: é insumo direto para o treinamento, uso e customização de modelos de IA.
O segundo é a demanda por eficiência. "Isso sempre foi uma questão no Brasil", disse Laham. Setores como varejo, manufatura e finanças operam com gargalos históricos de produtividade que a IA trata diretamente. Quem tinha menos vai se alavancar mais, porque tem mais a ganhar com automação.
O terceiro, e talvez o mais subestimado, é o ecossistema. Só no GitHub, o Brasil tem quase 5 milhões de desenvolvedores cadastrados. "Inteligência artificial é sobre ecossistema", disse Laham. Um ecossistema rico de desenvolvimento é o que transforma infraestrutura em produto, dado em serviço, capacidade computacional em inovação de negócio.
Esses três fatores, combinados, não posicionam o Brasil como fornecedor da cadeia de IA. Posicionam o país como um dos poucos mercados emergentes com condição real de gerar valor ao longo de toda essa cadeia.
Como quem está no centro do furacão se mantém orientado
No encerramento, Coimbra perguntou o que Laham diria a alguém que passa o dia inteiro imerso no tema da IA, sem conseguir acompanhar tudo que muda. A resposta foi o trecho mais humano da conversa. E, paradoxalmente, o mais estratégico.
Ela reserva as tardes ou manhãs das sextas-feiras para estudar. Não para responder e-mails, não para reuniões. Para acompanhar um campo que se transforma em velocidade industrial. Depois veio o segundo ponto: pensamento crítico. "Tenha acurácia sobre o que você ouve da IA para pensar se é o mais adequado para você." E o terceiro: foco. "É muito fácil se perder no frenesi da inteligência artificial." Não perca o foco.
Três princípios que valem tanto para quem implanta sistemas quanto para quem os usa como ferramenta cotidiana. E que funcionam, sobretudo, como antídoto à armadilha mais comum que Laham descreveu ao longo de toda a apresentação: fazer da IA uma feira de ciências quando ela deveria ser uma alavanca estratégica.
"Se ela vem do topo, se ela vem como estratégia e como habilitador para mudança de negócio, as empresas já estão capturando." A diferença não é de acesso. É de onde a decisão começa.
Takeaways
1. O verdadeiro gap não é tecnológico: é o gap de inteligência organizacional. Empresas que implementaram IA sem redesenhar processos e sem trazer contexto real para os modelos não estão capturando valor. O acesso à ferramenta é o mínimo. O que diferencia é a disposição da liderança para mudar como o trabalho é feito.
2. A adaptação da força de trabalho é o gargalo que mais poucos líderes querem enfrentar. Capacitar não é só dar acesso a uma plataforma: é redefinir como as pessoas trabalham, que contexto elas alimentam nos sistemas e quais habilidades passam a definir sua entrega no mercado.
3. O Brasil tem três vantagens competitivas reais na cadeia de valor da IA: uma população digitalizada em escala, uma demanda histórica por eficiência que a IA trata diretamente e um ecossistema de desenvolvimento com quase 5 milhões de desenvolvedores. Quem entender isso como estratégia, não como curiosidade, vai capturar a oportunidade.
Números e estatísticas citados na apresentação
- R$ 14,7 bilhões (quase R$ 15 bilhões): maior investimento único da Microsoft no Brasil em 37 anos de operação no país
- 90%: percentual de executivos C-level brasileiros que enxergam a IA como fator de competitividade (pesquisa Microsoft + IDC, ~100 entrevistados)
- 5 milhões: meta de pessoas a serem treinadas pelo programa Conecta IA em três anos (mesmo período da construção de infraestrutura)
- 3,8 milhões: pessoas que já completaram trilhas de treinamento no programa até a data da palestra
- 40: número de entidades parceiras do programa (ONGs, governo, empresas como Fundação Bradesco)
- 5 milhões: desenvolvedores brasileiros cadastrados no GitHub
- 11.000: modelos disponíveis na plataforma Azure AI Foundry para desenvolvimento de agentes

